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12/09/2019
Imagem retirada de https://www.jornalcontabil.com.br/saude-mental-no-trabalho-entenda-o-caso-dos-infoproletarios/ Imagem retirada de https://www.jornalcontabil.com.br/saude-mental-no-trabalho-entenda-o-caso-dos-infoproletarios/

O cenário do mercado de trabalho no Brasil mudou significativamente nas últimas três décadas em termos de concentração de pessoas nos setores, e também dos males que afetam os trabalhadores.

O século XXI viu a sociedade da informação se instalar diante dos numerosos avanços tecnológicos e, de forma paralela, o aumento da precarização estrutural do trabalho, notadamente no setor de serviços, que emprega 70% da mão de obra nacional.

É nesse contexto que surge um outro perfil de profissional condicionado não pela superação da lógica do proletariado, mas sim por uma nova forma dessa condição.

Tem-se um trabalhador do universo das novas tecnologias, que atua sob lógicas trabalhistas dos século XIX e XX, a exemplo da racionalização, da estandardização e a flexibilidade toyotista. Tudo isso tem significativos impactos na saúde mental no trabalho.

Infoproletário ou ciberproletariado é o termo cunhado para se referir ao grupo de trabalhadores do setor informacional e das telecomunicações na contemporaneidade.

Eles são frequentemente expostos à atividades repetitivas, alienantes e intensas. Além disso, padecem com a degradação e precarização do trabalho.

Fatores de risco para a saúde mental no trabalho
As relações entre saúde psíquica e trabalho têm suscitado um debate multidisciplinar devido à complexificação e a reestruturação não apenas da sociedade, mas também do mundo do trabalho.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), alguns fatores de risco para a saúde psíquica no local de trabalho são:

- assédio e bullying;
- políticas de saúde e segurança do trabalho inadequadas;
- má gestão e falta de comunicação;
- participação nula ou limitada em decisões;
- longas jornadas com horas inflexíveis;
- responsabilidade inadequada à capacidade do funcionário;
- risco de desemprego.

Operadores de telemarketing: proletários no século XXI
Em um país no qual o desemprego é um problema constante, as numerosas vagas em empresas de call center e telemarketing parecem ser a luz no fim do túnel para muitas pessoas, em especial, para os jovens que buscam o primeiro emprego.

No entanto, as condições de trabalho desses mais de 1,4 milhão de profissionais denunciam que a tecnologia e a globalização criaram e adensaram um novo contorno para a atividade laboral, centrado em produtividade e lucros acima de tudo.

Operadores de telemarketing são o resumo preciso do infoproletariado, pois operam segundo uma organização de trabalho que concentra algumas características essenciais do universo cibertariado. São elas:

- precarização do trabalho (terceirizados, subcontratados e outros);
- rotina de tarefas padronizada;
- submissão ao tempo e a programas informatizados;
- ritmos intensos de trabalho.

Ademais, a realidade dos operadores de telemarketing envolve uma série de violências estruturais, as quais abalam a autoconfiança, causando transtornos expressivos sobre a saúde mental.

São exemplos disso a responsabilização, as pressões e as punições diárias advindas de supervisores e empresas contratantes, condicionado por metas humanamente impossíveis.

Dentro dessa lógica organizacional, há ainda configurações com impactos diretos na integridade física do prestador de serviço, como as pausas de origem fisiológica altamente controladas e o desenvolvimento de lesões por esforço repetitivo (LER).

Dessa maneira, vemos todo um contexto ocupacional que está fadado a produzir corpos doentes. O investimento das empresas em soluções de serviços de saúde a  fim de prevenir e garantir o bem-estar dos funcionários é escasso e ineficaz.

A saúde mental do infoproletariado
A saúde mental é um estado de equilíbrio psíquico e não simplesmente um quadro de doenças mentais ausente. Essa condição tem por base diversas características como motivação, consciência/aceitação de si e maturidade emocional, entre outras.

Ricardo Antunes, Luci Praun e Cláudia Mazzei Nogueira, integrantes do grupo de pesquisa Metamorfose do Mundo do Trabalho, da Unicamp, estudam esse novo perfil de trabalhadores.

Conectados e consumidos por atividades profissionais que envolvem o controle e as pressões da automação e da tecnologia, os infoproletários sucumbem cada dia mais as diversas patologias. Eles evidenciam a associação entre novas tecnologias e a imposição das condições de trabalho do século XXI.

A dificuldade para alcançar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional é a ordem do dia, e os limites outrora muito bem delineados do trabalho finalizado às 17 horas já não existem.

Alguns exemplos dessas profissões são motoristas de aplicativos, operadores de telemarketing, vendedores do comércio digital etc.

O ciberproletário vive o modo on the go de vida. Uma conexão ininterrupta entre casa, trabalho e outros ambientes por meio de tablets, smartphones, softwares, games, painéis de controle, e-mails etc.

A saúde mental no trabalho, seguindo uma lamentável tendência mundial, tem sido impactada de forma negativa e severa. A falta de sentido e as condições da atividade laboral têm levado muitos brasileiros à infelicidade.

Se, no passado, as lesões de trabalho eram mais físicas, a exemplo de mutilações, no Brasil atual soma-se a essa realidade alarmante e difícil, os casos de depressão que aparecem entre as doenças que mais incapacitam profissionais no país.

Depressão no mundo do trabalho: uma doença mental incapacitante
A depressão é um quadro de adoecimento mental com graus diversos, frequentemente acompanhado de sintomas psíquicos e físicos que gradativamente produz incapacidade nas pessoas.

Essa doença é caracterizada pelos sintomas de fadiga, tristeza, falta de interesse e engajamento com atividades e falta de energia, além de insônia e, nos casos mais graves, pode conduzir a pensamentos suicidas.

São mais de 300 milhões de pessoas sofrendo com a depressão no mundo, segundo a OMS. Mais de 11 milhões desses casos foram catalogados no Brasil, o que resulta em 5,8% da população.

Nesse cenário, ficamos atrás de países como os Estados Unidos (5,9%), Estônia (5,9%) e Ucrânia (6,3%). A diferença percentual entre os países mais depressivos não é tão grande.

Os dados da Previdência Social sobre a depressão são alarmantes e indicam que, em 2016, a depressão foi responsável pelo afastamento do trabalho de mais de 75 mil brasileiros.

Além da depressão e ansiedade, os surtos psicóticos já são realidade na vida de muitos profissionais. Assim, a promessa de felicidade e praticidade da revolução digital no âmbito do trabalho revela seu lado falacioso e sombrio.

Ansiedade no trabalho
Um recente estudo da OMS indica que depressão e ansiedade têm um alto custo para a economia global. Por ano, a perda é de US$ 1 trilhão em produtividade.

Nesse cenário, o Brasil é o país mais ansioso do mundo,  segundo relatório divulgado pela organização. São 14,9% a mais de casos de ansiedade do que na década passada. Ocupamos o primeiro lugar, seguido pelo Paraguai e Noruega.

O percentual da população brasileira que sofre com o transtorno de ansiedade é de 9,3%.

Esse valor é três vezes acima da média mundial, que está em 3,5%. Enquanto essa patologia afeta milhões de brasileiros todos os anos, o caráter epidêmico que ela tem apresentado aparece frequentemente associado ao local de trabalho.

Entre os tipos de ansiedade que mais encontramos no universo laboral estão:

- Transtorno de Ansiedade Generalizada (TGA) – é um estado marcado por preocupação constante, exagerada e demorada com situações das esfera social das pessoas, incluindo o trabalho;
- Síndrome do Pensamento Acelerado – exposição excessiva a altas quantidades de atividades ou informações e uso compulsivo de computadores e celulares pode resultar nesse quadro psíquico.

Na Síndrome do pensamento acelerado o cérebro parece não desligar e a pessoa pode experienciar lapsos de memória.

A economia e a rápida digitalização da vida e do trabalho são elementos que podem desencadear o transtorno que, assim como a depressão, ou ainda associado a ela, pode levar o trabalhador a uma incapacitação.

Ambientes de trabalho repletos de incertezas, ameaçadores, estressantes são espaços que mais prejudicam a saúde do trabalhador, com o desenvolvimento de transtornos mentais.
Como manter a saúde mental no trabalho?

Criar um espaço de trabalho saudável e equilibrado é um desafio, mas é possível de ser alcançado. Isso pode ocorrer com a contribuição conjunta de chefes e funcionários na proteção e na promoção da saúde mental no trabalho.

Essa melhoria pode ser executada de diversas formas, mas é importante começar por instaurar práticas e políticas de redução dos fatores de risco, bem como desenvolver os aspectos positivos do trabalho valorizando o componente humano.

Ademais, é crucial que casos de doença mental sejam propriamente atendidos e administrados naquilo que cabe aos limites das empresas.

Psicologia do trabalho: uma solução com foco na prevenção e promoção da saúde do trabalhador

O cenário complexo e desolador do mercado de trabalho e da saúde mental dos profissionais na era digital demanda um conjunto de ações que considere as dimensões sociais e psicológicas desse contexto.

A Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) é um campo que tem muito a oferecer em termos de soluções para a prevenção e promoção da saúde do trabalhador.

A qualidade de vida no trabalho é possível de ser alcançada com método e técnicas do campo da psicologia. Exemplo disso, são as soluções ofertadas pela Psicologia Positiva.

A também chamada Psicologia da Felicidade, fundamentada pelo especialista em depressão Martin Seligman, pode ser aplicada aos campos da Gestão das Relações Humanas e da Saúde Mental no Trabalho com vários pontos positivos.

Ao operar com uma concepção de bem-estar que considera fatores como  relacionamentos positivos, engajamento e sentido na vida, essa teoria apresenta práticas que podem contribuir para uma ressignificação do espaço e dos sujeitos na esfera do trabalho.

A importância da saúde mental no trabalho é vital e a construção de um ambiente laboral seguro, gratificante e com engajamento positivo perpassa a busca por políticas e práticas que recuperem a autoestima do trabalhador.

fonte: Jornal Contábil

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